2/21/2009

Lavorare stanca

Detesto o trabalho (lavorare stanca) e não quero nada. Bom,gosto de dormir, e até durmo muito bem, talvez um bocadinho demais. Graças a Deus, preciso mesmo de dormir. Ás vezes, nos filmes, tenho problemas de metabolismo, quando se passa subitamente do dia para a noite, mas nada mais. Se sofresse de insónias, um destes dias dava em doido como o Nietzsche, doido varrido. Dormir é um velho truque que aprendi com o Tolstoi, e também com o Rossellini. No outro dia, li no Libération uma coisa assustadora: Um realizador francês queixava-se imenso das insónias crónicas que tinha. Pensei com os meus botões: então esse pobre senhor, quando chega ao plateau para fazer o trabalhinho, deve estar a morrer de sono. É desumano que não possa fazer gazeta para descansar o seu bocado. É o que qualquer pessoa faria em condições semelhantes. O ideal é chegar ao plateau com a frescura de uma rosa e a agilidade de um caçador perante a presa. Para bem poder saudar a beleza do mundo, como é evidente. E a beleza do mundo, como se sabe, é a beleza do cinema.

I hate the work (lavorare stanca) and do not want anything. 

Well, I like to sleep, and even sleep well, maybe a little to much. 

Thank God, I really need to sleep. 

Sometimes in movies, I have problems in metabolism, when suddenly the day turns to night, but nothing more. 

If i would suffer from insomnia, one of those days i would be crazy like Nietzsche.

Sleep is an old trick I learned with Tolstoy, and also Rossellini. 

The other day, I read a scary thing in Libération: 

A French filmmaker complained that he had chronic insomnia. 

I thought with my buttons: so that poor sir, when he get´s to the plateau to do the job must be dead sleeping.

It is inhuman that he cannot rest for a while. 

That´s what any person would do under similar conditions. 

The ideal is to reach the plateau with the freshness of a rose and agility of a hunter to the prey. 

To welcome the power and beauty of the world, of course. 

And the beauty of the world, as we know, is the beauty of the film.


- Joao César Monteiro -



2/01/2009

the poet by Herman Hesse

Só em mim, o solitário, brilham interminaveis as estrelas da noite. A fonte de pedra suspira a sua canção mágica, a mim, só a mim, o solitário, 
que as sombras coloridas das nuvens errantes, movem como sonhos sobre o campo aberto. Nem casa nem terra cultivada, nem floresta, nem privilégios de caça me são concedidos. O que me pertence, não pertence a ninguém, O caminho estreito, mergulhado por trás do véu dos bosques, o mar assustador, o som de um pássaro na brincadeira das crianças, O choro e o canto, de noite, em solidão, de um homem secretamente apaixonado. Os templos dos deuses também são minas, e minam os bosques aristocráticos do passado. E não menos, a abóbada luminosa do céu que é no futuro a minha casa: Frequentemente em pleno vôo de desejo, sobem acima as minhas tempestades de alma, para fixar no futuro de homens benditos, amor, superando a lei, amor das pessoas às pessoas. De novo os encontro, nobremente transformados: fazendeiro, rei, comerciante, marinheiro ocupado, pastor e jardineiro, todos eles agradecidamente, celebram o festival do mundo futuro. Só o poeta perde, o solitário que olha, o portador de desejo humano, a imagem pálida da incerteza do futuro. A realização do mundo não tem mais nenhuma necessidade. Muitas flores Murcham na sua sepultura, mas ninguém se lembra-se dele.

Only on me, the lonely one, The unending stars of the night shine, The stone fountain whispers its magic song, To me alone, to me the lonely one, The colorful shadows of the wandering clouds Move like dreams over the open countryside. Neither house nor farmland, Neither forest nor hunting privilege is given to me, What is mine belongs to no one, The plunging brook behind the veil of the woods, The frightening sea, The bird whir of children at play, The weeping and singing, lonely in the evening, of a man secretly in love. The temples of the gods are mine also, and mine the aristocratic groves of the past. And no less, the luminous Vault of heaven in the future is my home: Often in full flight of longing my soul storms upward, To gaze on the future of blessed men, Love, overcoming the law, love from people to people. I find them all again, nobly transformed: Farmer, king, tradesman, busy sailors, Shepherd and gardener, all of them Gratefully celebrate the festival of the future world. Only the poet is missing, The lonely one who looks on, The bearer of human longing, the pale image Of whom the future, the fulfillment of the world Has no further need. Many garlands Wilt on his grave, But no one remembers him.

My Humble translation from the english - "the poet", by Herman Hesse

1/29/2009

American writer John Updike died

"My subject is the American Protestant small town middle class," Updike told Jane Howard in a 1966 interview for Life magazine. "I like middles," he continued. "It is in middles that extremes clash, where ambiguity restlessly rules".

"O meu tema é o americano protestante, do pequeno povoado, e classe média," Updike disse a Jane Howard em 1966 numa entrevista para a revista Life.
"Eu gosto dos meios," continuou.
"É nos meios que chocam os extremos, onde reina a ambiguidade sem descanso."

1/27/2009

Artistas, Deuses, Origens.

Depois de estender o céu por cima de uma terra cujos elementos tinham sido separados um do outro, Deus deixou de criar, para fazer: O Génesis usa dois verbos diferentes para marcar a diferença. Fazer é mais sujo que criar, que pode mandar o ar fino aceitar a substância. Prometheus fez o homem salpicando o barro; Auguste Rodin, com cinco anos, achou os próprios ingredientes na cozinha. Ele viu a sua mãe, derrubar entrelaçamentos finos, de massa em óleo quente, e extrair pastéis crocantes; discernindo as formas do ser humano na massa retorcida, ele pediu se podia fritar alguns homens. Praticando para ser um escultor, ele amassou a massa em formas que eram quase grandes demais para a panela. Ficou encantado quando o calor animou os seus protótipos grudentos: O óleo a ferver, fê-los contorcerem-se violentamente, apressando-os para a vida. era uma lição útil, que ele talvez tenha lembrado em 1864 quando produziu o seu primeiro busto , representando um homem com um nariz partido. Rainer Maria Rilke disse que Rodin fez esta máscara tal como Deus fez o primeiro homem.

After stretching out the heaven above an earth whose warring elements had been separated from each other, God turned from creating to making: Genesis uses two defferent verbs to mark the difference.
Making is dirtier than creating, which can command thin air to take on substance. Prometheus made man by dabbling in mud; Auguste Rodin, aged five, found his own ingredients in the kitchen. He saw his mother dropping thin twists of dough into hot oil and extracting crisp pastries; discerning human shapes in the contorted batter, he asked her if he could fry some men. Practicing to be a sculptor, he kneaded dough into shape that were almost too big for the pan. He was delighted when the heat animated his sticky prototypes: The spitting oil caused them to writhe, violently quickening them into life. it was a useful lesson, which he perhaps remembered in 1864 when he produced his first portrait bust, representing a man with a broken nose. Rainer Maria Rilke said that Rodin made this mask as God created the first man.

My humble translation From: Artists,gods,origins-Peter Conrad.

a saborear a primavera ausente.

Bill Evans - B minor Waltz ( for Ellaine)

a fazer sorrir o inverno.

Vince Guaraldi-Linus and Lucy

1/26/2009

+ Chaos + chaos

"One must have chaos in oneself in order to give birth to a dancing star"
É necessário o caos interior para dar à luz uma estrela dançante.
Nietzsche
artwork by: N.F.

1/23/2009

desinstalar

Tem a certeza que deseja apagar o milagre 1512.doc?
Tem a certeza que deseja desinstalar o programa-Santos Milagres, e todos os seus conteudos?

1/19/2009

o silêncio do silêncio

Entrou na nossa história no fim - disse-lhe ele.
- Se o meu pai ainda estivesse aqui, podia responder a todas as suas perguntas.
Mas talvez a verdade, ou, como ele costumava dizer, a nossa tragédia humana seja não conseguirmos compreender a nossa experiência, deixá-la escapar por entre os dedos, não a conseguirmos prender, e quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna.
Talvez no seu caso tenha passado demasiado tempo e terá de aceitar, desculpe-me dizer isto, que há coisas na sua experiência que não poderá entender.
O meu pai dizia que a natureza nos fornecia explicações para compensar os enigmas que não conseguíamos decifrar.
O bater do sol frio num pinheiro no inverno, a música da água, um remo cortando o lago e o voo dos pássaros, a nobreza da montanha, o silêncio do silêncio.
A vida é-nos dada mas devemos aceitar que é inatingível e rejubilar-nos por aquilo que os nossos olhos, a nossa memória, a nossa mente consegue captar.
Era este o seu credo.
Eu próprio passei a vida ligado a actividades financeiras, sujando as mãos com o dinheiro, e é só agora que ele está morto que me consigo sentar no seu jardim e ouvir o que ele diz.
Só agora, depois da sua triste morte, mas, felizmente, você chegou.

trad: Maria João Delgado.

1/12/2009

Israel/2004









Quem tem medo do bicho papão,
Israel, 
pais gaiato.
Com orgulho de ladrão,
ordena por trás do fato.

Territórios são berlindes,
para a nação que é criança.
Fazer o homem pedinte,
do que era dele por herança.

Sem vergonha vive o descarado,
erguendo muros no seu quarto de brinquedos.
Pelo novo mundo assim mimado,
basta-lhe agora estalar os dedos.

Na televisão,
o disfarçe da elegãncia.
Mas por trás das paredes,
a fealdade dos seus dentes.
A triste doença da ignorãncia,
faz dos povos eternos pacientes.

A tudo assistimos e tudo discutimos,
mas logo a distracção se apodera de nós.
As ideias que construimos, perdem-se pobres,
na grande voz.

E fica um rosto.
Uma identidade.
Que irrompe num choro, num grito ou num canto.
No fundo de um poço aguarda a verdade,
mas as suas águas turvam-se de espanto.

12/31/2008

TARDE VENIETIBUS OSSA

ultimamente tenho-me perguntado:
porque me custa tanto cruzar com um animal abandonado (cães na maioria) e nem tanto assim com um sem-abrigo?
hoje, ao longo do dia, obtive de mim próprio uma resposta, que diz respeito a todos.
É que o sem-abrigo não foi convidado a entrar na sociedade do cão, não foi várias vezes limpo com carinhosas lambidelas, não fez parte da história de uma matilha, nem sofreu a traição de uma espécie que não é a sua.
fiquei bastante convencido da normalidade das minhas emoções, e doravante continuarei a chorar pelo cão.


Foto: Smith, um amigo da praia.

6/11/2008

comboio dos duros






Qualquer semelhança com a realidade...























é pura coincidência.











5/31/2008

em memória da memória


Estou a voar.
Uma gaivota passa-me por cima.
Uma outra passa-me por baixo.
Também sou gaivota, entendo então, mas foi nesse instante que se deu a minha queda, não para baixo, mas para cima.
Afastava-me do mundo a grande velocidade, e via a chuva a cair para cima.
Não entendia o que me estava a acontecer. Como podia eu furar assim as nuvens?!
Molhava-me e secava-me interruptamente, e sem saber qual seria o meu destino, despedi-me das minhas irmães que voavam lá em baixo, mas que para mim estavam cada vez mais alto.
Passei por um periodo incalculável de esquecimento, do qual guardo apenas como recordação, o imenso desejo de lá voltar.

Agora sou um homem que observa as gaivotas, enquanto a memória se diverte na espuma do mar.

gaivota: três frames do sucedido por video amador.


           














5/21/2008

first flight




Feito a partir de uma história de Miguelanxo Prado, um autor de BD que admiro muito.
fiz scanners das vilhetas mais importantes da narrativa e sonorizei de forma muito infantil esta obra de arte do autor.
é no fundo a minha homenagem a M.P.

4/28/2008

Retalho da manhã num jardim de lisboa


Manhã from Nuno Gouveia on Vimeo.

Fui surpreendido por esta imagem, quando passava material para dentro do computador.
Por acaso são os primeiros frames do dia, e parecem anunciar algo que não sei explicar muito bem.

4/25/2008

25 DE ABRIL: RESISTIR, logo hoje.

Hoje, dia 25 de Abril de 2008    ( feriado idóneo que merece dignidade ), foi o dia mais quente deste ano, e por isso, milhares de portugueses correram para as praias, como talvez digam mais tarde nas noticias da noite.

Na costa da Caparica, vila que acolhe mais lisboetas nas suas praias que qualquer outra, foi um clássico dia de verão, com a romaria natural que provoca um dia assim, ainda que com a brutalidade que vem das coisas repentinas.
Em uma dessas praias, a praia de S. João, o homem que foi ter com os seus amigos, teve que tirar uma vez mais a senha de parqueamento que permite entrar no caminho para a praia.
Tudo porque o terreno que antecede a beira litoral, pertence a um individuo que nem sabe o que é uma arvore  ( já foi ouvido a dizer que se ardesse tudo não fazia mal, porque crescia outra vez ), e se prepara para destruir de uma forma totalmente escura, a natureza de que mais se fala e mais se procura.
A beira litoral, a mata, a praia.
"Um destes dias, abrir-se-ão os olhos para casas, muros, campos de golf, lojas."
Logo aqui, onde são populares as ameaças do mar, logo no frágil ecossistema!
O homem pensa nessas coisas, e exalta-se e comove-se, e vê abrir-se a cancela, e chega à praia de coração pesado, já mais de metade, sem saber porquê...
Mais tarde, ao sair, com a antecedência que lhe permite chegar a horas ao seu compromisso, que no caso dele até era o gozo do cinema, vê-se confrontado com uma fila mastodôntica, que o impede de sair dali na próxima hora, tempo que demorará a chegar à maldita cancela.
Ali estão, milhares de portugueses numa espera absurda, crianças a suportar um calor severo, encontros perdidos, desgaste de cidadãos que procuravam precisamente o contrário, e tudo isto por causa de um único ser que não tem ainda outra forma de fazer dinheiro com o seu terreno, se não esta, sem principios, com egoismo, sem pensar duas vezes no que anda a fazer.
Em Portugal, o que é privado é sagrado e tratado com reverência, portanto lá estão todos, a suportar a espera sem reclamação, mas cansados, cansados agora e mais tarde, mas que se há de fazer, é a vida, "queremos é sair daqui".
O homem ainda está na metade do caminho que chega à saida, mas já decidiu que é hoje, hoje logo hoje, é peciso põr ordem nisto, avançar, cobrar a razão das coisas, exigir afinal, o simples senso comum, já que a "maioria" parece não concordar com aquilo, embora apenas o expresse através das buzinas dos seus carros...
Hoje, logo hoje, a liberdade deve vencer, e resistir é um dever, um imperatativo absoluto que o homem não negará.
Não, nem pensar.
Quando chegou a sua vez de pagar, saiu do carro e declarou que não andava mais um metro, nem para a frente nem para trás, até que a policia fosse chamada ao local, para que se entendesse que autoridade prevalecia numa situação destas.
O absurdo, ou a óbvia razão das coisas.
Desta forma bloqueou a saida e foi gerada a confusão total.
Claro que ainda teve que enfrentar aqueles "que querem é sair dali", mas manteve a sua viatura em frente à cancela, mesmo depois da chegada da policia, o que obrigou a que a mesma tivesse que ser aberta e centenas de carros passassem sem pagar.( ordem do capitão da GNR )
O homem teve ainda o prazer de ver um livro de reclamações ser esgotado numa hora, e de contemplar pessoas unidas , com um desejo de mudança, que apenas precisa de um gesto anunciador, de um estimulo, de uma chama.
Várias vezes foi coagido a calar-se, pelas autoridades e pelos funcionários do local ( doentiamente convencidos, que o seu patrão é Deus ).
Várias vezes ameaçado de prisão, continuou a pregar aos peixes, sendo que alguns ainda pagavam, mesmo com a cancela aberta.  
Estranho, muito estranho, inclusive para um estrangeiro, que comentava: mas como é possivel, uns pagam, outros não?!
Que vergonha, logo hoje.
O homem abandonou o local, com o sentimento de que nada será como antes, porque o que estava parado, moveu-se e modificou-se, de uma forma gémea à dos acontecimentos mais importantes para um povo, não na dimensão, mas no seu simbolismo mais que perfeito.
Um dos guardas, ainda chamou o homem à parte, de forma educada, e quis-lhe fazer ver que ele quase lhes chamara PIDE, ao que o homem respondeu:
Nada disso, se faz favor... mas sim, usei de demagogia, e quebrei as regras que foram feitas para quebrar.
Quando o guarda disse que não valia a pena discutir, ele retorquiu que valia.
Valia a pena discutir.

4/18/2008

Sociedade?

As coisas mais importantes são tão simples, que acabamos por não pensar muito nelas.


O que quer dizer a palavra "sociedade"?
A preguiça mental está cravada de uma tal leveza, que a questão é levada por uma brisa fantasma.
O termo "irmandade" aplicado à mesma ideia de seres-humanos levando a vida juntos, favoreceria muito mais todo o trabalho que é preciso levar a cabo, mas (...)
Por conveniência de certos senhores que "sabem", também as palavras mais importantes estão ao serviço das ditaduras.
Continuemos então, a chamar de "sociedade", o conjunto de Mulheres, Homens e Crianças que nascem e vivem para o mesmo.
Continuaremos ainda, a presumir o avanço da nossa espécie, e a abandonar os outros animais à sua sorte, permitindo à brisa que nada sabe, que leve tudo, tudo quanto houver de mais importante.

Imagem do filme muitas pessoas, de Joana Areal.

4/15/2008

O milagre do movimento




























3 frames de Inxalá, que pode ser visto mais abaixo.
(N.G.)

4/13/2008

Coisas de um domingo,só aqui na zona.

dois homens largam numa curva, um sofá velho.
um individuo sobe uma duna da praia só porque tem um jeep.
um rapaz faz pó com o moto-quatro.
à beira da pequena estrada, pessoas deixam flores a alguém que lá morreu ontem, exibindo uma atitude de turistas, pelo menos para mim.
um pequeno cachorro caminha pelo meio da estrada, parece procurar o dono.
A rapariga boazuda do costume anda de cá para lá na sua luxuriante bicicleta, fazendo girar de novo as cabeças dos machos.
há transito na pequena vila, e muitas outras coisas em que não reparei, só aqui na zona.

10/16/2007

para a Gabi

9/23/2007

Nunca escrevi sobre surf aqui no Abraxas, e nem vou escrever agora.



Making of Life - a tribute to Morning of the Earth from Nuno Gouveia on Vimeo.

8/29/2007


I am listening to Neil Young
Got to put up the sound
Someone is always howling
Put it down

Time out of mind - Bob Dylan - Highlands
Picture - Unknow

7/25/2007

Daniel Pennac - o paraiso dos papões

Um amigo francês que vive em Portugal passou-me este autor, absolutamente admirável, do qual deixo um excerto de " paraiso dos papões" , bem traduzido para a terramar por Lumir Nahodil:

" Os horários do dia deveriam prever um momento, um preciso momento do dia, em que a gente pudesse exercer a autocomiseração sobre a nossa sorte.
Um momento específico.
Um momento que não fosse ocupado nem pelo «bules» nem pelos «comes», nem pela digestão, um momento perfeitamente livre, uma praia deserta onde pudéssemos, miseros, medir a extensão do desastre.
Na posse do resultado de tais averiguações, o dia seria melhor, a ilusão banida , e a paisagem claramente balizada.
Mas ao pensarmos na nossa infelicidade entre duas garfadas, com o horizonte ocupado pelo iminente regresso ao trabalho, desorientamo-nos, avaliamos mal, imaginamo-nos menos ensarilhados do que de facto estamos.
Às vezes, até chegamos ao ponto de nos julgarmos felizes."

7/09/2007

Sentes, amigo
O nosso espectro arrancado do corpo?
Sentes que desperdiçamos corpo?
Que o violamos como se não fosse nosso...
Sentes mesmo;
O fogo maior que nunca despertamos?
Sentes o poema a querer sair de si?
Dele próprio como nós de nós...
Sente amigo
As minhas palavras como no teatro.
Não é dele feita a vida?
Não é isso real?
Não importa que o desejo permaneça.
Tu também permaneces, e antes do era já os seres...
Tu permaneces.

5/25/2007



5/24/2007

persistência

"O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter"

Sartre, Jean-Paul




Juan Génovés

5/16/2007

cinema experimental - para a slow, mas só a foto

Queria fazer cinema com ela.
Deitá-la na minha praia preferida, com o vestido que entre muitos, eu escolheria naquela altura.
Descobrir a sua pele, quando e quanto queria, pôr palavras carnais na sua boca fria.
Queria poder escolher entre cenários e cenários, fazer exotismos com os seus pés.
Calçá-los como bem entendesse, fazer a relação deles com a sua boca, espalhar os vermelhos à sua volta em vez de os pôr nela.
Queria realizá-la como agora, ou a mim, já não sei, utilizá-la.
Amor cinema.
Amor literatura.
Amei sempre mais as mulheres com que sonhei, e nenhuma delas era um poço de virtudes, por virtude de viverem nos meus dois mundos.
Queria fazer luz sobre cada parte do seu corpo, a que bate sobre a clareira da anca, onirica, amarelada.
A que brilha antes de chegar à nuca, a que escurece na garganta húmida da sua ilha do amor.
Fazer cinema sem preocupação de tempo.
Como se fosse possivel, valha-me a santa antiguidade, fazê-la morrer ao mesmo tempo que eu.
(N.G)

Slow picture - unknow

5/15/2007

Kurt Vonnegut , o sorridente

Só agora soube da morte de Kurt Vonnegut o mês passado.
tinha 84 anos, e dizia que a vida não é maneira de tratar um animal.
A sua existência literária, foi marcada em Dresden, em 11 de Setembro de 1945, quando a sua rotina de prisioneiro de guerra, alinhado na linha de montagem de uma fábrica de comprimidos instalada no antigo Matadouro 5, foi interrompida pelo mais brutal bombardeamento dos Aliados sobre a Alemanha nazi.
A cidade foi destruída e, nos dias seguintes, com outros prisioneiros, o jovem soldado empilhou corpos sobre corpos em crematórios improvisados.
“O bombardeamento de Dresden,” escreveu Kurt Vonnegut muitos anos depois,“é uma obra de arte.”
“Uma torre de chamas e fumo criada para comemorar a raiva e a indignação de tantos que tiveram as suas vidas interrompidas, arruinadas pela indescritível ganância e vaidade e crueldade da Alemanha.”
Matadouro 5 ( Slaughterhouse 5) foi publicado em 1969 e conta a história de Billy Pilgrim, um soldado raptado pelos Tralfamadorianos, uns sujeitinhos verdes, extraterrestres, que lhe ensinam a verdadeira natureza do tempo (isto é: que todos os momentos do passado, do presente e do futuro existem sempre e que a morte é apenas um momento desagradável, nem o fim nem o princípio) e depois o largam a dar a boa nova.
Atingido quando leva a sua mensagem ao Mundo, Billy já não se importa, porque sabia já como seria a sua morte.
Adeus, olá, adeus, olá” são as suas últimas palavras. E, ao mesmo tempo, as primeiras do ídolo que a contracultura criou e a cultura acabou por consagrar como um dos seus maiores.
A desenvoltura de um estilo literário que parecia capaz de criar uma nova gramática e mandar reformar os dicionários, as características peculiares da sua sátira e do seu humor negro colossal, fizeram de Kurt Vonnegut uma das vozes que define o melhor da literatura norte-americana do século XX.
outros trabalhos seus são:
Player Piano(1952), The Sirens of Titan(1959), ou Cat’s Craddle(1963) e God Bless You, Mr. Rosewater(1965)
Breakfest of Champions(1973), Jailbird (1979) e Galápagos: A Novel(1985)..

5/13/2007

Eu.
Parte da estrela, parte da galáxia, sugerindo grandeza através do meu existir, peço apenas que escutem com o vosso coração, o canto que sai do recipiente que sou, e me digam então.
Não era assim.
Sou muito velho, por isso falo assim.
Falo com a parte das palavras que vou retendo, há já tanto tempo.
Estou tão perto de não me fazer entender, como de mostrar tudo num breve contacto.
Quanto mais entendo isto, mais imprevisivel se torna a minha forma de comunicar.
Tem o vazio, vindo a tornar-se cada vez mais dinãmico na minha vida, envolvendo-me, a mim e a pessoas, numa mortalha feita de cosmos.
Se amanhã a felicidade é verdadeira, que importa isso?
Só de saber, que existe tudo quanto não sei, sonho o sonho, e sorrio o sorriso.
( N.G )

Allison Kendal - Jelly fish

5/11/2007

Serenidade
em vez do rasto do rio mental.
O momento está sempre em movimento.
Sobra a paz da sua contemplação.
A folha verde.
A voz calma de um amigo.
O tempo enrola suave, a sua canção.
Anjos e diabos, descansam à sombra.
A guerra esquecida, adormece também.
Metade de uma metade, passa de mão em mão.
Tira-se metade de um retrato, mas não faz mal, não faz mal...
Quase nada sabemos sobre essas grandezas.
Serenidade
em vez do rasto do rio mental.

(N.G.)



Maine landscape - Alex Katz

3/10/2007

Existem blogues sobredotados, como este, que ainda não tem um ano, e já se põe a falar destas coisas.

3/08/2007

estava a pensar

Para comunicar, não basta a comunicação.
Conta também o tipo de emissor e receptor, e ainda o grau de conhecimento que partinham um do outro.
Querer comunicar bem, sem estas relações bem equilibradas, é mais ou menos como fazer "aquela" equação, sem apresentar a prova dela.
Este facto da natureza é tão perfeito, que mesmo dizendo isto, sei que não comunico com todos os que possam ler isto, mas apenas com aqueles com quem possa comunicar, através disto.
N.G.

Georges Rouault-Christ on the cross



3/05/2007

Na margem da folha

Na margem da folha, descansas serena, tu, amada contemplativa.
Hoje tenho o teu sorriso, por certos deuses permitido.
Tenho gôtas de orvalho como saudades.
Tenho já maças da vindoura primavera.
Que gesto ousado permite lá no fundo, desenhar o retrato do que somos no mundo?
Na margem da folha, onde estão já os altos espaços, olhas para mim com o teu pudor atrapalhado, com receio que eu te puxe para a confusão aqui do centro.
Mas hoje...
Tenho o teu sorriso, talvez brincando com a graça da coragem, mas que faz o sumo, a alegria, a sugestão.
Que gesto ousado te permite, lá no fundo, entrares no retrato que eu faço do mundo?

N.G.
Jieng Sa Cheon-chinese ink on paper
O Abraxas já mencionou, que quanto muito, é uma pedra ?

2/28/2007

Endless Night

"Every night and every morn
some to Misery are born.
Every Morn and every Night
Some are born to Sweet Delight, some are born to sweet delight
Some are born to Endless Night."


William Blake "Auguries of Innocence"


He was a good boy, by Theatre of tragedy

2/26/2007

Dizem que um peixe dourado tem uma memória de três segundos.
Pelo menos ele não se esquece de quem é.

2/23/2007

mensagem em código, em que cada um dos intervenientes, e cada um apenas para si, sabe do que falo:

O amigo Lopes é o maior, mas a Mariana não se fica atrás

Lisbonwood ou o medo americano

Certa vez, durante a expo 98, dei boleia a um americano depois de uma festa no pavilhão da Áustria.
Ele era tão tipicamente americano, que logo um outro eu tomou conta de mim.
Atravessei Lisboa a uma velocidade medonha, sem respeitar sinais de qualquer cor, ou quaisquer perigos insuspeitados.
O americano queixava-se, e eu na minha, acelerava.
Acelerar, acelerar, tua boca deve-se calar.
Se eu era doido?!
Doido a full time ou doido a part time?!
Respondi-lhe que era como nos filmes, que se fazem lá na sua terra.
O americano queixava-se...
Que eu confundia o filme com a realidade, que os filmes são os filmes!
Eu mais ainda no meu outro; acelerar no filme, acabar com o excesso que o homem me causava.
Acabo por dizer: nós por cá preferimos os filmes, os tais...
Os maiores do mundo!
Até ao rossio é sempre a abrir, e ele já aos gritos, quase a esmurrar-me o nariz a grande speed, mesmo com o carro já parado, e eu sorrindo, ele gritando:
ARE YOU INSANE?!
ARE YOU PUSHING ME?!
Sugiro que troquemos os contactos, para o caso de precisar de um driver da próxima vez que venha a Lisboa.
O americano lá subiu ao quarto para ir buscar um cartão, mas eu arranquei dali antes que ele voltasse, e pudesse ainda esmurrar-me o nariz, e o filme acabasse mal para mim, eu que me sentia herói, vitorioso sobre o melhor do mundo, bêbado e vaidoso tão longe de casa.
The end, escrito no vidro pára-brizas, o tejo, a marginal, os créditos, luz intermitente, fita a rolar à vontade.
N.G.
Artwork by: Jeremy Okai Davis-American Hero

P.S. a não ser que dêem boleia a um americano mesmo charlatão, não guiem a altas velocidades, porque isso mata pessoas da forma mais ridicula que se conhece.

2/19/2007

Sobre a enxada que carrego comigo, imortalizada lá no alto.


Sempre te lavro, folha.
Como a pele depois das unhas,
a formar sulcos.

Sempre te penetro, folha.
Com a voracidade do predador,
antes do tempo.

Sempre te largo, folha.
Com a embriaguês dos que fecundam,
e depois dormem.

N.G.

2/15/2007

Bodysong

BODYSONG by Simon Pummell (United Kingdom, 2002)

Bodysong (que só agora tive oportunidade de ver ) é uma história epica de amor, sexo, violência, sonhos e morte.
A história das nossas vidas, contada através de imagens de todo o mundo.
Desde noticiarios até filmes caseiros, nascimentos e mortes, momentos tirados aos últimos 100 anos do cinema, montados para uma ambiciosa composição de Jonny Greenwood, dos Radiohead.
Bodysong é ao mesmo tempo um filme teatral e um website.
No site www.bodysong.com podemos ver as histórias das pessoas retratadas em cada uma das extraordinárias imagens desta poderosa produção.
Aqui partilho cerca de oito minutos, bem ilustrativos do que poderão receber, se virem o trabalho final com cerca de duas horas.

2/01/2007

Curiosidades recorrentes: Alamut

A lenda de Alamut intriga-me constantemente desde que li o livro de Vladimir Bartol, com o mesmo nome.*
Não sabia que Marco Polo tinha passado por Alamut, e por isso aqui deixo este seu texto, que tão perfeitamente faz, a sinopse do mistério daquela fortaleza.

"The Old Man kept at his court such boys of twelve years old as seemed to him destined to become courageous men. When the Old Man sent them into the garden in groups of four, ten or twenty, he gave them hashish to drink. They slept for three days, then they were carried sleeping into the garden where he had them awakened."



"When these young men woke, and found themselves in the garden with all these marvelous things, they truly believed themselves to be in paradise. And these damsels were always with them in songs and great entertainments; they; received everything they asked for, so that they would never have left that garden of their own will."

"And when the Old Man wished to kill someone, he would take him and say: 'Go and do this thing. I do this because I want to make you return to paradise'. And the assassins go and perform the deed willingly."

- Marco Polo - on his visit to Alamut in 1273
*-"Alamut" é considerada a obra prima da literatura eslovena.
Hassan-Ibn-Sabah, aqui.

1/21/2007

Acontece que

Concedo a minha atenção à rapariga que passa, com eterna esperança na sua beleza, mas eis que ela projecta o gesto bruto, salpicando-me o nariz com a minha bola de ilusão.

>Ilustração detalhada do acontecimento.

curiosidades recorrentes:

Pan
Be still, green cliff of the Dryads. Be still, springs bubbling among rocks, and confused noisy bleating of the ewes.
For it is Pan playing on his honey-voiced pipe.
His supple lips race over the clustered reeds, while all round him a ring of dancers spring up on joyful feet:
Nymphs of the Water and Nymphs of the Oak
Forest.

Plato 428 a.c.

Barnard - Great God Pan

1/10/2007

"Art is a lie that helps us to realize the truth."
A arte é uma mentira que nos ajuda a ver a verdade.
~ Pablo Picasso
Modern times by Graffo

1/08/2007

Para todos, eu incluido

Existirá momento, mais propicio que este,
Para que recebas a felicidade ?
Bem sei que em nada ele parece especial.
Que é apenas um minuto,
transitando para outro.




Que é somente um retalho, de manhã, tarde ou noite,
e com nenhuma prova de certezas perfeitas.
Mas é em ti que ele espelha a substancia,
a razão secreta de um gesto iluminado,
que ao seres capaz de receber,
fará nascer, outro melhor.

N.G. 08/jan/2007
Cloud Gate, theatre play

11/27/2006

...

Os anos passam, eu cansado de escrever poesia, por companhia, apenas a velhice.
Numa outra vida, o acaso fez de mim poeta, numa outra existência, o destino fez de mim pintor.
Incapaz de lançar fora usos esquecidos, o mundo me conhece poeta e pintor, sabe o meu nome, identifica o meu estilo.
O meu coração ainda ninguém conhece.
Wang Wei (701-761)
Frank Howell-October night


11/24/2006

imaginarium tempestuoso

Chovia cá dentro.
As portadas das janelas batiam com força, e o vento assobiava no esplendor da ameaça.
Pingava sobre os meus pés, as meias molhadas, os passos encharcados, pó e incenso boiando no soalho.
Chovia cá dentro, mãe minha.
Eu estava só e muito pouco seco, não chorava por temer afogar-me, resvalei nos corredores pelos rios da memória, quase sem luz e o corpo gelado.
Chovia tudo, desta vez.
Sem saber como tudo iria acabar, deixei-me arrastar, respirando a custo.
A minha pele enrugada não sentindo mais as roupas, o meu olhar turvo por um cinzento liquido.
Paredes de ondas castigando-me agora, a vida já indecisa, a memória híbrida.
Chovia cá dentro, mãe ainda, e eu assim roubado à minha solidez, convergia para a tua imagem no assombroso remoinho.
(N.G.)
Kazuo Chiraga - a deep water

11/17/2006

Modern Times?

Parabéns a Bob Dylan, que após trinta anos, vê de novo um album seu no primeiro lugar dos tops de vendas americanos.
"Modern Times" é um disco maravilhoso, com uma energia vibrante,que pessoalmente não me canso de ouvir.
A qualidade de som tem qualquer coisa, que só podia vir de um artista que sabe bem o que ela representa.
Será que as tabelas de tops estão a mudar, (como já li em alguns titulos sensacionais sobre este acontecimento) ou será que o rapaz de 19 anos, Robert zimmerman, adolescente boémio apaixonado pelos blues e pela poesia beat, ao rumar para Nova York e integrando-se na comunidade folk de Greenwich Village, adoptaria para sempre um nome que o mundo tão depressa não iria esquecer?!

10/22/2006

insolência espiritual

-Paciencia, homem.
Agora já sabes o que custa a vida.
- Tudo bem, Deus.
Dormi mal esta noite.
- Pois é, homem.
Assim é que se aprende.
- Tudo bem, Deus.
Escusas de ser tão paternalista.
- Paternalista !?
Eu !?
Mas...
Mas...
- Vá lá, Deus.
Relaxa.



Detalhe de: in the face of god-Ron Francis

10/15/2006

não há bela sem senão.


- Já não há principes de cavalo branco (...)
Dizia-me a recém conhecida, triste e contrafeita;
e enquanto ela se repetia, gorda nos exemplos, dei-me conta do seguinte:
- Sabes.
É curioso; mas para nós, os homens, ainda existe a bela adormecida.
(Captei a sua atenção).
- Então..?
- É que acontece-me algumas vezes, estando uma relação proxima do fim, e já não tendo eu, sequer respeito pela minha namorada, dar ainda por mim, ao seu lado na cama, a observá-la enquanto dorme, e a sentir por ela, um grande amor.



Edward Hopper
, ilustra de forma maravilhosa o meu diálogo do dia, com o seu
reclining nude.
Um outro titulo para este post, podia ser: Sê bela e cala-te.
Frase atribuida a Charles Baudelaire, em circunstancias desconhecidas.

10/12/2006

um rapaz optimista

Do mais fundo dos meus ais, saiem ondas espumosas e negras, que ao desaguarem na luz da razão, logo se espalham na inexistência.
Do mais antigo dos meus medos saiem soldados em feliz fim de guerra, regressando à sua branca criação, após a mais absurda destruição.
Do mais fundo do meu ego, sai um suspiro, que mais parecia ser, um grito.
Do mais fundo do meu olhar, saiem por fim, as imagens mais enganadoras.
Se tudo sai, depois de entrar;
Se tudo passa, depois de chegar, do mais fundo do meu gesto bruto, sai por fim uma dança que quero contemplar.
No mais fundo da dúvida, não existe luz para se ver a dúvida;
Do fundo do mundo emerge um grande calor, como no fundo do meu ser emerge este fogo, ascendendo a todo o fora.
A luta é indigente, quanto mais me é indiferente, pois o que sinto não posso negar, se não estou morto ou fora desta vida.
Do mais fundo das minhas palavras, sai toda a confusão que possam ter,
e assim, clarificadas, sua história e seus caminhos eu partilho.
Sem que a nada me oponha, desmentindo ou concordando, todas as palavras me rodeiam de surpresa.
Agora que o sinto, no mais fundo do meu aqui, encontro uma criança, uma e outra vez, e voltado para ela, fico vendo as coisas tal como ela as julga sentir, bem como o poema que tenta construir, e portanto, logo que o vejo, abandono a pressa de me abandonar, e já que aqui estou, aproveito para me saudar, bem como ao tempo que eu vier a demorar.

Dentro do abraço desta nova pessoal, sei que um dia se poderá dizer deste ditado, que foi escrito por um rapaz muito optimista, e dai para aqui, vejo bem o poder que este aqui reserva, e eu por mim recebo.

N.G. 1996
Gravura de Herman Hesse, um companheiro de optimismos.

10/10/2006

Familias

E as familias suspeitavam umas das outras, numa dança tonta que as não animava, crendo nos seus, mas desconfiando dos seus, porque se engole, o ser faminto?
As familias tinham regras muito rígidas, como paises, cada qual com seus costumes.
O que defendiam, eram mentiras sujeitas ao tempo.
O grande ainda aceita o pequeno, mas no desmedido não cabe nada.
As familias resistiam a esta ideia, preferindo antes uma segurança falsa, tonta, artificial, claro, como se sabe, mesmo as familias, falsa e tonta.
Por isso fendas se abriram por baixo delas, como na bíblia do poeta, não fui só eu que vi.
E as familias eram sempre de alguém, que continuava a dor das familias de alguém, toda a gente sabe qual o desejo por trás das suas forças...
As familias estavam e estão, muito longe ainda, de poder ter o além, mais adiante ainda.

10/07/2006

Love in war

Para aquele que escreve, mas não concebe ainda, o supremo autismo das palavras.
Para o que escreve, crente nos destinos.
Para o que imagina com orgulhosa piedade.


Para o que soma textos sem nunca se ferir.
Para o que julga sentir.
Para o pobre tonto:

Esperas que te admire no teu terrestre equilibrio.
Falas e falas, que escreves e escreves...
O que me apetece mais é insultar-te, virar costas aos teus andaimes, perder de vista meu olhar sobre o vale.
Está lá escrito tudo o que escreves, e o mais ainda que não podes escrever.
Basta.
Não me aborreças.
Morre neste silencio, ou num outro à tua escolha.

E quando o silencio te tenha falado, deixa vencer os teus sentidos.
Dá-te a cada sopro, cede,
e só depois escreve, escreve.
(N.G.)
imagem de Margie Labaddy
.

9/14/2006

Sem ela

Sem beleza, sem ela, tantas mulheres.
Consigo carregando o ócio da vida, mas da pele já apartada a emoção.
O desejo em coro, transformou o anjo em cada uma delas.
Vivem aborrecidas pelas festas urbanas, orgulhosas por mil e uma actividades, convencidas de que a vida é esse soro, sempre a esvair-se, como o exemplo do ventre.
Esperam ainda gozar, antes que tudo acabe, e se sintam mortas a valer, mortas a sério, com uma beleza a condizer.
Eróticas, sempre eróticas.
Isso ninguém lhes pode tirar, mesmo que para isso se tenham de esforçar.
E não será outra mulher, sem ela, sem beleza, a vencer com truques do mesmo calibre, bastando para isso o ponto fraco em cada homem, sempre pronto a ceder, se for para seu prazer.
Sem beleza, sem ela, tantas mulheres

9/11/2006

days by the pool / curta 02

João.
Tenta não pisar a toalha das outras pessoas,
que elas podem levar a mal, não achas?
Elas podem levar a mal que uma criança saudável
pise a sua toalha.
Elas podem ter o direito de fazer uma cara feia,
e pensar que o João é mal-educado, e que por essas e outras é que não têm filhos, para não sentir o embaraço de ele pisar em toalha alheia.
Se ao menos a toalha levantasse voo, derrubando a pessoa, e erguendo o João na sua pontinha, sobre a piscina, os campos, a serra, e sobre a relva todos admirados, especialmente o dono da toalha, e os pais do João e eu próprio.
Se ao menos alguém tivesse a ousadia de lhe acenar um adeus, aceitando com emoção, a inesperada subida aos çéus...
Mas tudo acaba por não acontecer, e o próprio João mal ouve o que lhe dizem.
Com desequilíbrio, corre ligeiro.

9/09/2006

days by the pool / curta 01

O rapaz estrangeiro, de pele mais branca que a lua cheia da noite passada, dando ares de altivo e robusto, caminha confiante sobre a relva ainda mais verde.

Bebendo uma cerveja de marca nacional, que logo que acabada,
projecta irreprímivel no caixote ainda mais cinzento.
Adiantando-se para a piscina, o seu olhar parabólico ás donzelas
em volta, ligeiramente grosso por minha conta, ainda que o sol não ultrapasse o meio-dia, acerca-se do vertical chuveiro,
e então:
Sem contar encontrar-se com um senão, roda a torneira ainda mais brilhante, e depois, por um instante, gafanhoto e não rapaz, salta para trás, com medo da água.

9/08/2006

estar de volta

Estás por ai, segredo luminoso?
Crês que haverá luz,
nos dias seguintes ao desta canção?
Estás por ai, altíssimo além,
crês haver caminho por ai,
para quem me queira mal ou bem?
Estás por ai, preciosa dávida, devo ainda crer que doiras os destinos?
Estás por ai, outro eu em mim,
preparado para fecundar o tempo, dançar com o espaço,
seres por mim?!

Não me digam só que sim.

Podes não estar, num perfeito se-calhar.
Podes pensar como eu, com espelhado direito maior,
eu ser o outro em ti, a quem te diriges.
Estás por ai, ouço-te perguntar,
e eu respondo que sim,
mas não te posso provar.

7/08/2006

Uma das coisas mais dificeis de controlar,
e fazer durar, é a
volúpia
Alguém ajude a
Please help
Cristina
Alguém que avise a
Please tell
Patricia








No one knows the final word.

Magnificent comes close.



Ambos os autores: desconhecidos

7/07/2006

A resposta da Patricia

7/06/2006

dos discursos perfeitos


-Gráfico.
-Diz, artista plástico.
-Não tens vontade de tocar na tua forma?
-Mas claro que a toco artista plástico.
Quando lhe ordeno que forma ser.
-Mas gráfico, não gostavas de lhe pegar?
-Gostava artista, por isso lhe pego antes para a formar depois.
-Boa resposta gráfico, e afinal está muito bonito.
-Obrigado bom artista, também gostei tanto da tua carantola.

7/05/2006

A natureza, essa, tudo pode


Tantos dias com preciosos elementos, sós não chegam, para formar uma imagem do sagrado.
A natureza, essa, tudo pode.
Ao transformar-se deslumbra o transformado, e ele quer capturar o seu composto efémero, justificar o seu feliz vislumbre, mostrar a todos a possibilidade...
Mas esquece:
Tantos dias com preciosos elementos, sós não chegam, para formar uma imagem do sagrado.
A natureza, essa, tudo pode.
Tranformando tudo com ritmos diferentes, usando a casualidade como passagem para outro espaço, para onde só partem os que no acaso se encontraram, entre tantos dias com preciosos elementos, mas que sós não chegam, para formar uma imagem do sagrado.

Desenho de Jeremiahpalecek

6/26/2006

Day dreaming

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.
Há coisas piores que
estar sózinho
mas geralmente levamos decadas
a percebermos isso
e na grande parte das vezes
em que o percebemos
é tarde de mais
e não há nada pior
que
tarde de mais
Charles Bukowski









Toda a questão sobre mim próprio,

permanece no gelo do meu reflexo.
"Imagination will often carry us to worlds that never were. But without it, we go nowhere."
A imaginação leva-nos frequentemente a mundos irreais.
Mas sem ela, não vamos a lado nenhum.

~ Carl Sagan, Cosmos
Print de Alain Pilon

6/24/2006

Merendando com os monges da montanha Fu

Avançado nos anos, conheci princípios puros, claros,
hoje, cada vez mais afastado da multidão.
Espero a vinda dos monges da montanha solitária,
já varri a entrada do meu humilde lar.
Depois de picos e nuvens, ei-los por fim chegados
à pobre casa de colmo, o meu lar.
Sentados em esteiras comemos pinhões,
queimamos incenso, lemos os sutras.
Extingue-se o dia, acendemos lanternas,
anuncia-se a noite, tocamos o ching*.
Ao compreender que a quietude é fonte de alegria,
a vida concede-nos a liberdade serena.
Porquê tanta pressa em regressar?
No mundo tudo é vazio e nada.

* Pedras sonoras percutidas com uma vareta de madeira.

Wang Wei ( 701-761 )
Trad. António Costa De Abreu

6/16/2006

Embriagai-vos

Deve-se estar sempre embriagado.
Nada mais conta. para não sentir o horrivel fardo do tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? de vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos.
E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão:
« São horas de vos embriagardes! para não serdes os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! de vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»

Charles Baudelaire ( paraisos artificiais ) Trad. José Saramago
Quadro de Jackson Pollock

Qual a novela que segues?

Fantásticos tempos estes, em que podemos escolher a nossa novela diária sem ficarmos prisioneiros de qualquer canal de televisão, nem da programação que ele escolhe por nós.
Pequeno prefácio para escrever sobre a novela que sigo neste momento,
a qual, me apetece partilhar com todos.
The New States Man, the complete series.
Os diários de Alan B´Stard, deputado de direita no parlamento inglês, que não olha a meios para atingir os seus fins, que não sabe o significado da palavra "moral", e que está sempre disposto a vender a sua própria Mãe, se isso lhe garantir algum interesse pessoal.
Simplesmente genial, é tudo o que tenho a dizer, ao jeito da propaganda inglesa do headline sobre a capa.
Rik Mayall é um actor fabuloso, daqueles que nos fazem esquecer a sua profissão, e o resto do elenco nunca lhe fica atrás.
Para ver todos os dias num DVD perto de si.
Estas novelas não demoram meses, mas há muito por onde escolher, por exemplo, posso adiantar-vos que as minhas últimas foram:
Six feet under, de Alan Ball, e Cosmos, de Carl Sagan.
Pequeno inconveniente: não servem de assunto de escritório, mas podem sempre tentar.

6/13/2006

Por vezes, os diáfanos do espirito despedaçam-me os versos.
Não os versos propriamente ditos, mas a matéria deles, a sua génese primitiva.
Por vezes nem são versos, são teia, argamassa, prosa fecundada na infância das infâncias, e depois fica só uma espécie de ideia central, uma letra do alfabeto das estrelas, uma pista a servir de lembradura.
Já não posso querer mal a estes passageiros incendiários, aprendi a viver com eles como faz o corpo com os micróbios.
Por vezes impedem algo mais, mas pergunto porém, existirá alguma coisa como, algo mais?

6/08/2006

Dualidade popular










A que pretende ser bela,

e com garridices conta,

ou está perto de ser velha,

ou está perto de ser tonta.

6/06/2006

capicua?

Não há coisa encoberta senão aos olhos da toupeira.

5/17/2006

direito de auto-resposta ao post logo a seguir

Compashion must be completed by wisdom.
The two are inseperable.
A compaixão deve ser complecta pela sabedoria.
As duas são inseparáveis.
They co-exist, and without the other neither is possible.
Elas coexistem, e uma sem a outra não é possivel.

5/12/2006

O lixo dos outros

Ontem, ao abandonar a praia, dou com um sujeito
a rasgar em pedaços o que parecia ser uma folha A4,
espalhando depois ao vento as dezenas de papeladas.

Hesitei pouco, antes de me voltar para ele e dizer:

Ó amigo, olhe que a praia é de todos.
- O quê ? ( respondeu-me ele )
É errado o que está a fazer.a sujar a praia.
- Oh pá, já viu o lixo todo que aqui vai ?!
Sim, mas não foi você, ou foi ?
-Não, mas o que é que quer que eu faça ?
Queria que não fizesse isso.
-Mas eu quero fazer ( atirou ele, como uma pedra ).
Está bem. a praia assim fica mais bonita, não é ?
Quero lá saber da praia mais bonita ( arremessou de novo ) .

Como não sou violento, dei o diálogo por terminado e afastei-me.
Afinal, ele queria mesmo fazer aquilo, e defendia isso como um direito.
Hoje ( por coincidência ), lá andava um grupo de jovens
da câmara municipal a limpar esse e outro lixo.
Não só o lixo acidental, feito por humanos, mas também esse outro
feito por energúmenos.
Em nome dos Humanos, agradeci-lhes o seu trabalho.

Living with war


Neil Young também está farto.
Eis o desabafo do seu mais recente
trabalho:


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Alguns gostam de poesia

Alguns-
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam-
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia-
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska ( fim e principio ), 1993

desenho de: Yukari Miyagi

5/02/2006

A mulher é fatalmente sugestiva; vive de uma outra vida além da sua própria; vive espiritualmente nas imaginações que frequenta e fecunda. A woman is fatally sugestive; she lives from another life beyond her own; she lives spiritually in the imaginations she frequents and fertilizes.
Charles Baudelaire

4/28/2006

Selma Lagerlof

Acabei agora mesmo de ler "A maravilhosa viagem de Nils Holgersson" e quis aqui deixar a minha sentida homenagem a Selma Lagerlof, onde quer que ela se encontre.
Acabei o seu livro no melhor ambiente possivel, rodeado de árvores e das vozes dos pássaros que cantam agora a Primavera...
No adeus de Nils aos patos bravos, tanbém eu senti desejo de ser gnomo
para poder falar às aves que me rodeavam, e queria agradecer-lhe do fundo do meu coração comovido, todas as lágrimas que me fez correr ao longo da viagem do pequeno Nils.
Que bom é; quando pensamos que as histórias para crianças já não nos podem encantar, e surge diante de nós o talento da simplicidade, e o carinho de Deus através de um artista.
Obrigado Selma.
Obrigado, meu Deus.

4/26/2006

As pedras são professores mudos, emudecem o observador, e o que de melhor com elas se aprende não é comunicável.
Goethe

Gerald Castelo Lopes